A morte de Elis Regina e o cadáver carbonizado

“Cadáver” reaparece em encontro literário
1 de dezembro de 2020

O que existe em comum entre a morte da cantora Elis Regina e a do senhor Jaime Gonçalves, cujo cadáver foi carbonizado durante o velório, em 1982, e inspirou Fernando Pellon no disco icônico “Cadáver pega fogo durante o velório”, lançado em 1984? A jornalista Maria Helena de Pinho, do blog contraBando investigou e conta essa história. Leia a seguir.

Cadáver Pega Fogo Durante o Velório: Tragédias Populares e Violência Lírica

 

Por Maria Helena de Pinho

Era quarta-feira, dia 20 de janeiro de 1982. Cerca de 15 mil pessoas acompanhavam um cortejo fúnebre pelo centro da cidade de São Paulo, partindo de um velório no Teatro Bandeirantes com destino ao Cemitério do Morumbi. No meio da multidão e seus lamentosos cantos, transitava o corpo da cantora gaúcha Elis Regina, trajada por uma bandeira do Brasil que estampava seu nome no lugar da frase “Ordem e Progresso”. Ao meio dia, na zona norte, do outro lado da cidade, o senhor Jaime Gonçalves dava o último suspiro de seus 75 anos na terra. Na falta de parentes e demais companhias, apenas um único amigo comparecera a sua despedida. Na manhã seguinte, o corpo de seu Jaime foi encontrado sozinho e carbonizado, provavelmente devido a uma vela cuja queda não havia ninguém para impedir. O cadáver do pobre-diabo, abandonado à própria morte, pegou fogo durante o velório. E, tal como Elis Regina, entrou para a história da música popular brasileira.

Uma nota sobre o episódio foi publicada no jornal carioca Última Hora, fundado pelo polêmico jornalista Samuel Weiner — tão corriqueira que trocava o bairro paulistano Santana, onde ficava o hospital em que falecera o idoso, pela cidade de Santos. O título “Cadáver Pega Fogo Durante O Velório” chamou a atenção do jovem geólogo Fernando Pellon, que há anos colecionava manchetes trágicas, sanguinolentas, bizarras e o que aparecesse de interessante pelas páginas dos jornais do Rio de Janeiro. Notícias estas que, para além dos acontecimentos em si, continham um valor imaginário e importavam, sobretudo, por sua dimensão narrativa, pela qual a barbárie e a violência eram exploradas também esteticamente. A inspiração para os recortes de Pellon veio dos escritos do poeta, compositor, cineasta e jornalista Torquato Neto, expoente de movimentos vanguardistas dos anos 60 e 70, como o Tropicalismo. O Anjo Torto defendia a potência das imagens e pregava o registro documental constante do Brasil em suas festas e desgraças, suas brechas e seus ruídos passageiros: tudo aquilo que a visão esquece e as palavras desnorteiam, mas que tem na câmera sua melhor testemunha.

Assim, juntando cacos do que há de mais singular das tragédias populares cotidianas, Fernando Pellon e seu coletivo Malta d’Areia produziram um disco que até hoje permanece “maldito” e pouco explorado, no subsolo da música brasileira.  Com o objetivo de estudar e produzir arte popular, também integravam o coletivo os compositores Paulinho Lêmos, Roberto Bozzetti, Fátima Lannes, Renato Calaça e Tonico Frazão. Influenciados por ensaios e críticas de autores como Augusto de Campos, Abraham Moles e o próprio Torquato Neto, o grupo idealizou o LP que levou o mesmo título da nota de jornal. Sem saber tocar um único instrumento, Fernando Pellon compôs todas as faixas — com coautoria de Paulinho Lêmos em “Tal Como Nazareth” e Renato Costa Lima em “Flores de Plástico Ao Amanhecer”. Os arranjos ficaram por conta do violonista João de Aquino, produtor de vários discos clássicos de samba e primo de Baden Powell. Entre os músicos contratados para tocar no LP, estava um jovem na faixa dos 20 anos que fazia mágica com suas sete cordas e viria a se tornar um dos maiores violonistas do Brasil: o extraordinário Raphael Rabello.

Para dar voz às canções, foram chamados Nadinho da Ilha, sambista da Unidos da Tijuca, Cristina Buarque, irmã de Chico, e Synval Silva — compositor responsável por grandes sucessos de Carmen Miranda, como “Adeus Batucada” e “Ao Voltar do Samba”, além de ser convidado ilustre das serestas promovidas pelo pai de Pellon no quintal de sua casa no Grajaú. Paulinho Lêmos fechava o time de intérpretes que, junto ao compositor principal da Malta, tiveram seus rostos estampados em 3×4 na capa do LP, em alusão aos cartazes de procurados pelos órgãos repressivos da Ditadura Militar em curso na época. Diagramadas como um jornal-pinga sangue, a capa e a contracapa traziam manchetes reais da coleção de Pellon, como “Caseiro come orelha do rival por ciúmes” e “Matou a tia por um prato de mocotó”. Recebiam como linha fina trechos de letras carregadas de mágoa, rancor, dores de cotovelo e outras desgraças ordinárias — porém estas vindas do coração e do estômago de gênios como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Candeia, Carlos Cachaça, Wilson Batista e Nelson Cavaquinho.

Essas referências levaram a Malta D’Areia a fazer um resgate curioso do samba e do choro pré-bossanovistas, fugindo de uma mera lembrança saudosista e reivindicando criticamente elementos tidos como “clichês” pelo público de classe média dos anos 80, como lembrou Fernando Pellon em entrevista ao zine “Rock de Plástico”, em 2009. Tal como nos sambas maledicentes e nos fait divers jornalísticos, as letras das nove faixas de Cadáver se ancoram no banal, no vulgar e no rotineiro para trazer uma coleção de barbaridades e fracassos, com personagens pútridos que, no caso do disco, entregam-se ao desalento e sucumbem ao ambiente sujo e perverso que os cerca. A construção narrativa das canções se aproxima também da “Linha de Morbeza Romântica”, conceito inventado por Jards Macalé e Waly Salomão e que também bebeu diretamente de sambistas sofredores como Nelson Cavaquinho e Lupicínio. A “morbeza” seria um amálgama de morbidez e beleza: a tradição cultural brasileira dessa mistura incongruente de humor, amor, alegria, drama, depravação e violência, da qual temos como grande exemplo a obra literária de Nelson Rodrigues.

Apesar do derrotismo sombrio que circunda a obra, os artistas seguiram na contramão de sua arte. Em vez de recorrerem a subterfúgios para mascarar a crueza e o teor crítico deste que seria o único LP da Malta, brigaram com a censura por quase um ano após o fim da produção até finalmente conseguirem, em 1984, a liberação para o lançamento. Mais recentemente, Fernando Pellon lançou dois outros álbuns, Aço Frio de Um Punhal (2010) e Moribundas Vontades (2016), nos quais também traz regravações e músicas compostas originalmente para Cadáver que não entraram na versão final do projeto.

Cadáver Pega Fogo Durante O Velório abre com a canção “Porta Afora” e os provocativos versos “Quando eu soube que estava canceroso / Ergui louvores ao criador”. É o irônico e venenoso testamento de um homem com o orgulho ferido após ser escorraçado de casa. Encontra alento na iminência da própria morte e devolve à ex-futura-viúva seu desprezo, despersonalizando-a como uma prostituta qualquer. Já o eu-lírico de “Altivez”, a música seguinte, permanece em contradição no esforço por manter a postura altiva de sua masculinidade enquanto secretamente goza de um prazer masoquista ao apanhar da própria mulher. “Com Todas As Letras” narra os momentos finais de um suicida e sua completa ruptura com as amarras sociais e as estruturas de poder, buscando a liberdade na autodestruição. Nesta faixa, a mais explicitamente política do LP, Pellon desafia a censura e, ao falar do vermelho da poça de sangue em que findaria o suicida, ainda brinca com um trecho do hino do clube carioca América-RJ, escrito por Lamartine Babo: “A cor do pavilhão é a cor do nosso coração” — verso que lembra também os de Augusto dos Anjos: “E amou, com um berro bárbaro de gozo/O monocromatismo monstruoso/Daquela universal vermelhidão!”.

O atropelamento de “Carne no jantar”, quarta faixa do disco, desvela a curiosidade mórbida despertada pelas fatalidades rotineiras nos centros urbanos e, ao mesmo tempo, a furtividade destes olhares para evitar qualquer envolvimento (Por azar deu pra perceber a placa do carro). É seguida por “Cicatrizes”, mais uma nítida herança das dores de cotovelo lupicínicas — mas desta vez a tragédia é se lembrar de sua antiga amada em cada trivialidade do convívio com a nova companheira, destino similar ao que cantava Lupicínio em “Foi Assim”. Em “Vã esperança”, que compara o amor com a lepra, Pellon faz uma ode à linguagem escatológica de poetas como Augusto dos Anjos, repudiando eufemismos (como o termo “hanseníase”) e abraçando plenamente o horror da realidade — tal qual cravara Drummond: “A vida apenas, sem mistificação”.

O piano do mineiro Helvius Vilela introduz o choro “Tal Como Nazareth” — referência ao compositor e pianista Ernesto Nazareth. Assim como Chiquinha Gonzaga, Nazareth foi precursor da estilização do maxixe enquanto gênero popular brasileiro, o qual serviria como uma das bases para o surgimento do samba. Apesar de sua importância histórica para a música no Brasil, ele morreu de forma ainda menos glamourosa que o zé-ninguém churrasqueado no velório. Perto de virar septuagenário, fora internado com sífilis na Colônia Juliano Moreira, antigo manicômio em Jacarepaguá (RJ). Passou-se um ano e encontraram seu corpo em estado de decomposição boiando numa represa, três dias após tentar fugir da Colônia na data do aniversário de seu filho caçula. Até hoje não se sabe se foi acidente ou suicídio — este último sendo a conclusão de Jacob do Bandolim ao investigar pessoalmente a morte de seu grande ídolo. Em “Tal Como Nazareth”, entretanto, a forma misteriosa que ocorreu a morte do pianista é um desejo do eu-lírico, fugindo dos divãs e das tentativas de decifrar a complexidade da mente humana. Além disso, a melodia desta canção de Pellon e Lêmos remete a duas das mais famosas composições de Nazareth: “Odeon” e “Apanhei-te Cavaquinho”.

A melancólica “Prazer Qualquer” é a clássica saga do homem abandonado que busca consolo nos cenários boêmios e nas personagens noturnas. Contudo, engenhosamente, é a única faixa interpretada por uma mulher, a cantora Cristina Buarque. Em contraste, logo chega a animação do coro e dos percussionistas que encerram o álbum no cômico samba “Flores de Plástico ao Amanhecer” — o qual, inclusive, inspirou o filme de Fátima Lannes “É Miquelina, Minha Mulher”, exibido na 11ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1987. Aqui quem reclama é um morto, furioso por ter descoberto que a viúva havia deixado flores de plástico em seu túmulo, assim se desobrigando de visitá-lo nem ao menos anualmente no dia de Finados, como manda a tradição. Depois de tantas histórias de desilusões amorosas e desejos suicidas em Cadáver, nada pior que a constatação de que até mesmo a sete palmos da terra os miseráveis continuam rejeitados e a sofrer por amor .