Coletivo Malta D’Areia, que lançou Fernando Pellon, foi grande incubadora de talentos

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Atuando com frequência fora dos espaços tradicionais que abrigam realizações artísticas, os coletivos de artistas independentes têm conseguido “ativar” outros ambientes com as suas intervenções, inclusive consagrando-os como fóruns de debates de conscientização política.

A arte e a criatividade são normalmente as ferramentas utilizadas por esses grupos para expressar e divulgar as suas vivências, mas também vêm sendo usadas contra gargalos como discriminação, censura, pouco dinheiro para investir em suas produções, ou dificuldade de acesso aos meios convencionais de produção.

Por outro lado, os coletivos de arte também podem ser identificados pela sua capacidade de revelar talentos, e essa é uma marca do então Coletivo de Compositores Malta D’Areia, nascido em Niterói, município fluminense, no final dos anos 70, que revelou artistas como Fernando Pellon e os seus parceiros Paulinho Lêmos, Tunico Frazão, Roberto Bozzetti e Fátima Lannes.

— Diante da asfixia geral da música popular brasileira ocasionada, na década de 70, pela censura federal e pela dificuldade de acesso aos meios convencionais de produção e divulgação, coletivos como a Malta D’Areia se tornaram uma alternativa de sustentação fora dos circuitos comerciais. Foi nesse contexto que o disco independente apareceu como grande novidade e solução possível. Daí nasceu o “Cadáver pega fogo durante o velório”, diz Fernando Pellon.

 

Produção colaborativa

 

O compositor disse que, na época em que a Malta D’Areia foi lançada, o modelo de trabalho utilizado foi o da produção colaborativa, “onde o interesse comum residia na visão evolutiva da música popular”.

— Foi um período de criação “especialmente voltada para os caminhos imprevisíveis da invenção”, como preconizou Augusto de Campos em “Balanço da bossa”, nosso livro de cabeceira. “Com a nostalgia do futuro”, ensinou o poeta. É essa pegada que eu sigo até hoje.

Outra integrante da Malta D’Areia que gosta de recordar os bons tempos do coletivo é Fátima Lannes. Ela disse que falar do grupo “requer sentimentos únicos e verdadeiros e necessitariam de muitas e muitas páginas”, para contar essas histórias:

— Sempre trás lindas lembranças do que foi o grupo Malta D’areia. Seis amigos, eu, Tunico Frazão, Renato Calaça, Roberto Bozzetti, Paulinho Lêmos e Fernando Pellon, que se reuniam quase todo final de semana pra discutir, compor e ouvir música.  Foi uma época de aprendizado sobre tudo que nos gratificasse e divertisse e que resultou numa obra de letras e músicas belíssimas, declarou Fátima que é compositora e na Malta D’Areia também atuou como atriz, produtora musical e diretora de cinema.

Fátima Lannes fala de outras experiências interessantes junto ao grupo:

— No começo dos anos 80, nós nos apresentávamos frequentemente na cena cultural do Rio e Niterói. Fui compositora da Malta D’Areia, tenho música gravada, participei da produção do disco “Cadáver pega fogo durante o velório”. Nessa época também trabalhei como atriz, diz Lannes que dirigiu o filme “É Miquelina, minha mulher”.

 

Interesses comuns

 

Fernando Pellon acredita que os coletivos de arte contribuem para a democratização da carreira artística, uma vez que o termo “coletivo” pressupõe “a existência de pessoas congregadas em torno de interesses comuns”.

— Essa experiência inclui também o compartilhamento de recursos humanos e materiais, como acontece na produção artística independente, que é uma instância de democratização da cultura. Ao longo da história, são evidentes os excelentes resultados obtidos no processo criativo quando várias pessoas interagem em busca de objetivos estéticos convergentes.

O compositor comenta sobre a oferta de ferramentas que as novas tecnologias da informação e comunicação oferecem para a produção colaborativa.

— Podem ser citadas a organização em redes virtuais na internet e o uso de software livre, além das plataformas gratuitas de distribuição de conteúdo e de divulgação em marketing digital. A Malta D’Areia não contava com esses recursos, o que na época limitou a visibilidade do nosso trabalho. 

Atmosfera poética 

 

A Malta D’Areia inicialmente se reunia em um sobrado na Ponta da Areia, em Niterói. Segundo Pellon, a atmosfera poética desse momento, no fim da década de 70, foi capturada na música “Canção do sobrado”, de autoria de Paulinho Lêmos. “Ainda relembro das noites do velho sobrado guardado e fechado lá na Ponta d’Areia…”, assinala um trecho da letra.

O primeiro show grupo foi realizado no Museu da Cidade de Niterói, no dia 8 de fevereiro de 1980. O espetáculo foi dedicado ao Lula, um integrante do grupo niteroiense de música negra “Vissungo”.

— Apresentamos, ainda, no teatro do Sesc Niterói, o show “João maus costumes” e a peça infantil “Onde é que cabe um circo”.  Havia um diálogo frequente com o pessoal do curso de Letras da UFF, onde estudavam o Roberto Bozzetti e a Fátima Lannes, conta o compositor, que acrescenta que a Malta D’Areia tocou no lançamento do livro “Ismael Silva: samba e resistência”, de autoria do professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho.

Fernando Pellon revela que da inspiração poética recebida do coletivo anárquico da UFF conhecido por ECA do B (Escritório Central dos Alcoólatras do Brasil), surgiu a música “Último degrau”, em parceria com Tuke, que faz parte do seu segundo disco “Aço frio de um punhal”.

Um fato hilário que ocorreu no período de efervescente de atividade da Malta D’Areia, “entre muitos”, segundo Fátima Lannes, aconteceu no lançamento do livro “Ismael Silva: samba e resistência”:

— O Pellon ia cantar algumas músicas do Ismael silva junto com a Malta. Na hora de se apresentar, todos subiram no palco menos o Pellon. E quando eu o procurei, ele estava dormindo em pé. Acordei a figura que, tranquilamente, como se nada estivesse acontecendo, pegou o microfone e saiu cantando. Como sempre, esse é o Pellon!