
O compositor Fernando Pellon é um dos artistas convidados da série especial de entrevistas do mês de abril do Clube do Vinil BCE-UnB, projeto idealizado pelo setor de Coleções Especiais da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB), que oferece um espaço de debate e troca de experiências entre artistas e amantes da música.
A entrevista com Fernando Pellon foi realizada on-line, com a participação do coordenador do Clube do Vinil Marcelo Scarabuci e do estudante de Jornalismo da UnB Igor Borges. O bate-papo com o compositor serviu de base para o encontro que o grupo promove semanalmente toda quinta-feira, ao meio-dia, na Biblioteca Central da UnB. O material ainda vai ser decupado e veiculado nas redes sociais do projeto.
O que chamou a atenção do Clube do Vinil na produção musical de Fernando Pellon foi o disco “Cadáver pega fogo durante o velório”, lançado em 1984. “Sempre me surpreendem positivamente qualquer nova menção positiva ou novo interesse despertado na internet pelo ‘Cadáver pega fogo durante o velório”, mesmo 42 anos depois de seu lançamento. Isso mostra o caráter atemporal do trabalho e a pertinência até hoje das questões por ele levantadas”, declarou o compositor.
Destaque
O Clube do Vinil nasceu em outubro de 2022, como um projeto-piloto. Em 2024, se consolidou como uma atividade de extensão da UnB. A iniciativa surgiu dos bibliotecários Marcelo Scarabuci (colecionador de discos de vinil há muitos anos e que foi trabalhar no setor de Coleções Especiais – Colesp da biblioteca) e Jefferson Dantas (que também já atuava há algum tempo com o assunto).
“Nós nos juntamos, amadurecemos a ideia e demos início ao projeto que hoje existe e resiste com a colaboração de estudantes, pesquisadores e parceiros voluntários, que nos permitem fazer reuniões semanais. Toda quinta-feira do mês, ao meio-dia, temos Clube do Vinil BCE-UnB”, explicou Marcelo.
Esta não é a primeira vez que o disco “Cadáver” vira assunto de destaque em um ambiente acadêmico. Fernando Pellon tenta explicar o que influencia o interesse neste seu trabalho especificamente.
“O disco foi concebido como um experimento disruptivo em MPB, sendo influenciado pelas lições da Tropicália e pelos escritos teóricos de Torquato Neto e Augusto de Campos. Além disso, trata-se de um produto estético sofisticado, no qual a elaboração do projeto gráfico, a escolha do repertório, a confecção dos arranjos e a seleção de músicos e intérpretes ocorreram de maneira integrada num esforço de criação coletiva de todos os participantes da iniciativa, notadamente a Malta da Areia, em Niterói (município do Rio de Janeiro) ”, declarou.
Curadoria
A curadoria do Clube do Vinil é orgânica e a sua proposta, segundo Marcelo, é criar “um espaço onde todos podem opinar e sugerir, e até se disponibilizar para apresentar”. Os coordenadores e os voluntários vão montando a agenda de acordo com o que recebem de sugestão. “Aquilo que já estiver encaminhado (Existe o vinil? Quem vai apresentar?), entra na agenda”, informou o coordenador do projeto.
O clube funciona como um projeto de extensão para os estudantes, que é realizado durante o período letivo. Em cada encontro é abordado um tema diferente, que pode ser um disco (como ocorreu apresentação do vinil “Cadáver pega fogo durante o velório”), um fato musical (músicas censuradas), ou então uma oficina de preservação de suportes de som ou de discotecagem.
“Em todos os encontros contamos com a participação de estudantes voluntários, seja na apresentação, na curadoria ou na mediação. O departamento responsável pela estrutura, pelo acervo e pelos servidores que capitaneiam o projeto é a Biblioteca Central da UnB, que conta atualmente com uma gestão autônoma e progressista, que dá total apoio a projetos de extensão como o Clube do Vinil, o Cineclube e o Clube de Leitura”, disse Marcelo.
O acervo de discos físicos (vinis) da Biblioteca Central da UnB é o principal suporte ao Clube do Vinil. Entretanto, acervos parceiros (como o do colecionador Marcelo Scarabuci) podem dar suporte aos encontros, caso necessitem de um disco mais difícil de encontrar.
O coordenador contou que os encontros do Clube do Vinil são bem ecléticos. “Já tivemos clubes de artistas nacionais recentes como Jão, de artistas internacionais como ‘The Cure’, Janis Joplin, de rock nacional como Júpiter Maçã, Raul Seixas, dentre outros. No nosso Instagram tem a retrospectiva com todos os cerca de cinquenta encontros que já fizemos”, afirmou.
Inicialmente, a sugestão de falar do disco “Cadáver pega fogo durante o velório” foi do próprio Marcelo e do estudante Igor Borges. “Mas logo com os rumores apareceram outros estudantes dispostos a participar da mesa, para falar sobre o disco. Apesar de o disco não fazer parte (ainda) do acervo da universidade, será emprestado do meu acervo, para que seja feito o encontro”, declarou Marcelo.
Qualidade
Marcelo explicou que o interesse em apresentar o disco “Cadáver pega fogo durante o velório” nos encontros do Clube do Vinil surgiu a partir do pedido dos estudantes de indicação de discos. “Muitos estudantes nos pedem recomendação de discos ‘novos’. A gente logo pergunta o que a pessoa curte, se é música nacional ou algum estilo específico”, disse o coordenador.
Se durante o bate-papo alguém faz menção a samba ou a discos ‘diferentes’ nacionais, censurados, ou ‘estilo Skylab’, Marcelo disse que logo sugere o “Cadáver pega fogo” (como o disco é chamado carinhosamente no clube). “É um disco que não passa em branco, sei que quem ouvir vai se lembrar para sempre. Por isso, é sempre uma sugestão acertadíssima”, destacou o coordenador do Clube do Vinil.
Uma composição em especial é chama a atenção de Marcelo no disco “Cadáver pega fogo durante o velório”.“É a música ‘Com todas as letras’ que é uma narração guiada, em primeira pessoa, de uma experiência única, de uma forma lúcida e objetiva. Da mesma forma que ‘Carinhoso’, do Pixinguinha, te guia entorpecido de amor pelas ruas, ‘Com todas as letras’ te guia ao fim de forma apaixonante, impossível pensar em outra forma mais fiel de expressão da liberdade, que não nossas moribundas vontades”, afirmou Marcelo.
Outra coisa que ele destacou é a qualidade técnica instrumental e o time de peso presente no disco, que ele considera um espetáculo à parte. “Une-se a isso poemas que se fossem apenas impressos também impressionaria pela qualidade, autenticidade e naturalidade. A união disso tudo resultou numa obra completa. O ‘Cadáver pega fogo durante o velório’ é um marco brasileiro na arte de se fazer música. Isso nenhuma IA pode reproduzir”, ressaltou.
Marcelo só lamenta que ainda não é possível um público maior ter acesso às entrevistas do Clube do Vinil. Por enquanto, os encontros do clube são apenas presenciais, e abertos a toda comunidade.
“Infelizmente não gravamos por uma questão de logística mesmo. Quem sabe futuramente consigamos produzir alguns episódios em formato de Podcast, para poder chegar a quem não pode nos prestigiar presencialmente. Gostaríamos de ter pernas também para fazer em outros estados, como fizemos já em Florianópolis”.
. O encontro sobre o disco “Cadáver pega fogo durante o velório” no Clube do Vinil será, provavelmente, na quinta-feira, 23 de abril, ao meio-dia. Para assistir à entrevista, acesse o link: https://drive.google.com/file/d/1WEUaU6-kAByzjAws4xhBwKJSu45AQccQ/view?usp=sharing