
“Descoberto” recentemente pelo Clube do Vinil da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB), o disco “Cadáver pega fogo durante o velório” acaba de virar destaque, também, em uma reportagem da UnB TV.
A matéria foi gravada durante o encontro semanal das quintas-feiras que o Clube do Vinil promove na universidade e reservou para debater a produção do disco, gravado originalmente em 1983 e lançado somente 1984, devido ao veto que a censura da ditadura do regime militar (1964-1985) impôs à música “Com todas as letras”, uma das suas nove faixas.
E pelas ruas vou me liberando
Quebrando vidraças
Desacatando a autoridade
Blasfemando contra a vontade de Deus
Contra a pátria e a propriedade
A agonia de um suicida
É a mais fiel expressão da liberdade
Uma nau sem amarras
Que os ventos da sorte
Conduzem ao porto, à morte
Para o bem da música popular brasileira a truculência do regime não venceu o talento e nem Fernando Pellon silenciou diante de tanta barbaridade cometida contra a cultura. O resultado é que o disco se tornou icônico e, quarenta e dois anos depois do seu lançamento, segue como sendo o trabalho musical mais conhecido do compositor mineiro e referência como obra de destaque de autores independentes.
Não foi à toa que no mesmo ano em que foi gravado (1983) o disco conquistou o troféu Chiquinha Gonzaga da Associação dos Produtores Independentes de Discos (APID), e que este vinil de rara qualidade musical atualmente esteja sendo pesquisado e tocado no Clube do Vinil da UnB.
Fernando Pellon contou que tem acompanhado com muito interesse o renascimento dos discos em vinil. Na sua opinião, esse movimento na prática configura “uma oportunidade de resgate do objeto estético” em seu formato físico.
“Com o disco, podem voltar as capas e os encartes maravilhosos, dos quais sinto tanta falta”, disse o compositor. “Por exemplo, o Douglas Germano (compositor paulistano), de quem sou fã, tem um álbum recente chamado ‘Branco’, que foi lançado digitalmente, mas também com uma versão em vinil. Por isso, fiquei muito gratificado com a oportunidade recente de falar sobre o ‘Cadáver Pega Fogo Durante o Velório’ a convite do Clube do Vinil. E mais feliz ainda por ter ganho destaque na reportagem da UnB a respeito do citado clube. É assim que consigo divulgar meu trabalho”, declarou.
“Cadáver pega fogo durante o velório” foi produzido pelo crítico musical e jornalista Roberto Moura (1947-2005) e ganhou destaque pela qualidade do repertório de sambas e choros gravados com as participações especiais de Paulinho Lêmos, Sinval Silva, Nadinho da Ilha e Cristina Buarque.
Para cuidar da base instrumental Fernando Pellon levou para o estúdio um time formado por músicos excepcionais, no qual se destacam os violonistas João de Aquino (responsável pelos arranjos) e Raphael Rabello, Helvius Villela (piano), Marcelo Bernardes (sopros) e Oscar Bolão (percussão).
O disco também foi inserido na série on-line da Multimistura – Rádio UFMG Educativa onde aparece como um dos quatro discos brasileiros “clássicos, importantes e influentes” de cada ano, a partir de 1965. Esta seleção coloca Fernando Pellon ao lado de Gang 90 & as Absurdettes, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados e Ritchie.
Acesse o link e assista o programa na íntegra: