Cadáver pega fogo durante o velório

Letras e partituras

(Fernando Pellon)

Quando eu soube que estava canceroso
Ergui louvores ao criador
Pois me desprezaste
Me escorraçaste
Destruindo nosso ninho de amor
Um lar sem varão não vigora
Perde de existir toda razão
Mas em boa hora
Mandaste-me embora
Aos insultos e pontapés
Porta afora

 

Confesso, fiquei temeroso de início
Ao saber da biópsia
O resultado positivo
Mas logo quedei-me tranquilo
Ao pensar no futuro
Pois, homem prevenido
Já tinha feito um seguro
Terás pelo resto da vida
Pensão alimentícia
Só não sei o bordel que te encontro
Para lhe dar a notícia
Nem tampouco se atendes
Por Norma, Marli ou Letícia

(Só perguntando à polícia…)

(Fernando Pellon)

Bata devagar
Abusar da violência
É uma excrescência
Bata devagar
Para que a dor eu possa
Suportar com paciência
Não quero fraquejar
E em desespero te rogar
Um pouco de clemência
Bata devagar
E tente controlar
De tua ira
Tamanha cupidez
Bata devagar
Cada membro meu aguarda sua vez
Só não quero chorar
Para ao mundo poder mostrar
As marcas desse amor
Com altivez

(Fernando Pellon)

Eu ingeri uma dose letal de veneno
E saio pela cidade
Tudo está consumado
Agora é fatalidade
O porvir então se resume
Em mera questão de tempo
Eu condensei meu futuro
Perspectivas de vida
Em parcos, fugazes momentos

E pelas ruas vou me liberando
Quebrando vidraças
Desacatando a autoridade
Blasfemando contra vontade de Deus
Contra a Pátria e a Propriedade
A agonia de um suicida
É a mais fiel expressão da liberdade
Uma nau sem amarras
Que os ventos da sorte
Conduzem ao porto, à morte

Sempre gostei do vermelho
“A cor do pavilhãoé a cor do nosso coração”
E tento sem hesitar
Com um objeto cortante
Seccionar a jugular
Então numa poça de sangue
Descubro afinal que a felicidade
É ver enfim satisfeitas com todas as letras
As minhas moribundas vontades

(FernandoPellon)

Disfarça e olha
Um homem acaba de ser atropelado
Disfarça e olha
Por azar deu pra perceber a placa do carro
Disfarça e olha
Seu sangue tingindo de morte o asfalto no chão
Disfarça e olha
Que a cena é de cortar o coração
Disfarça e olha
E sai de fininho que é pra não dar na vista
Disfarça e olha
Eu não quero me envolver com a polícia
Disfarça e olha
Com cuidado para não se impressionar
Porque, amor
Hoje tem carne no jantar
(E eu suei pra comprar)

(Fernando Pellon)

Em linhas gerais
Tens os traços iguais
Aos dela
Coisas triviais
Encantos banais
Tão iguais
Aos que ela traz
E pra meu desgosto
Estampas no rosto
Um sorriso similar
Que me faz te odiar
E de ti precisar
Por causa dela.

Amor de verdade, não tem jeito
Tem que ser perfeito
A viver na mentira
Prefiro a saudade queimando no peito
Mas há cicatrizes
Que só a marcha do tempo revela
E agora eis-me aqui com você
Por causa dela

(Fernando Pellon)

Ouvi dizer que o amor
É como em certos casos de lepra
O sujeito se estrepa em três tempos
Ouvi que a dor do amor
É como em certos casos de lepra
Quando a doença nos dilacera os membros

Nunca gostei de eufemismo
– Dor de cotovelo, ardente paixão
Terminologia evasiva
Mesmo com a tal de “hanseníase”
Se tenta encobrir a crueza
Que há nesta vida

Pois ouvi dizer que o amor
É como em certos casos de lepra
Que nunca se curam a contento
Ouvi dizer que na presença do amor
Assim como em certos casos de lepra
Qualquer esperança é perda de tempo

(Paulo Lêmos e Fernando Pellon)

Não estou afim de bancar Champolion
E decifrar teus sonhos
Hieroglifos freudianos
Fruto de teu esfíngico inconsciente
Pois é o seguinte:
Não acho uma boa
Dormir no ponto
Dar uma de tonto
E vomitar pelos divãs
As coisas chãs e vãs
Tão próprias do cotidiano
O negócio é armar uma doideira
E ir pra Juliano Moreira
Esconder-se no tempo
Fingir tocar piano
Tal como Nazareth
E terminar afogado
Em algum lago
Anônimo

(Fernando Pellon)

Dos momentos
De tormento
De você
Eu me lembro
Apesar de tudo
Como tudo foi bom

As angústias
As tristezas
Aflições
Incertezas
Nada resistia
Ao sabor do batom
Que usavas
Acalentando então
A ilusão
Do instante perfeito
O sonho refeito
Após a trégua de um beijo

Hoje a noite
Me encontra
Ávido
Por te esquecer
No centro da cidade
Pelos cabarés

Povoando
A minha solidão
Com algum
Rosto de mulher
Saio em busca
De um prazer qualquer

(Renato Costa Lima e Fernando Pellon)

No dia de finados
Constatará o mundo
Minha memória reverenciada
Bateste em retirada
A mim não deves mais nada
Com a tua consciência
Estás desobrigada

Só sei que quando contemplei
Flores de plástico ao amanhecer
Ornando a minha campa
Quase levanteiindignado
A tampa do meu pesado ataúde
Quis fazê-lo, mas não pude
Por estar debilitado
Um cadáver
Um coitado
Em estado precário de saúde

Obrigado BACteria…