
Lançada originalmente em 1961, no Teatro Ginástico, em Copacabana, a peça “Beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues, reestreia no Rio de Janeiro, na próxima quinta-feira, 16 de agosto, no Teatro Gláucio Gil, e lembra a proximidade estética do texto do cronista e dramaturgo, na exploração de tragédias urbanas, com o universo poético do compositor Fernando Pellon, na música “Carne no jantar”, que ele escreveu em meados dos anos 1970 e lançou no primeiro disco da sua carreira “Cadáver pega fogo durante o velório” (1984).
“A letra foi inspirada em uma cena de atropelamento com morte que presenciei quando criança no Terminal Rodoviário Mariano Procópio, situado na Praça Mauá, na zona portuária”, explica Fernando Pellon.
A tragédia que a letra de “Carne do jantar” descreve (o sangue e a morte de uma vítima de um acidente de trânsito) tem muita semelhança com o enredo da peça “Beijo no asfalto”, em que um homem é atropelado na Praça da Bandeira, centro do Rio, por um lotação (antigo transporte público, que circulou na cidade entre os anos 1940 e 1960).
Disfarça e olha
Um homem acaba de ser atropelado
Disfarça e olha
Por azar deu pra perceber a placa do carro
Disfarça e olha
Seu sangue tingindo de morte o asfalto no chão
Curiosidade mórbida
Ao fazer uma comparação do tema explorado na letra de “Carne no jantar” com o argumento da peça “Beijo no asfalto”, Fernando Pellon chama atenção para um ponto de convergência da música com a peça teatral. “Em ambas as obras, há menção ao sangue no asfalto atraindo a curiosidade mórbida dos transeuntes”.
São os dramas sociais urbanos que nas letras de Fernando Pellon são uma marca “transgressora”, como ele próprio define, e que esteticamente segue uma linha narrativa de denúncia da hipocrisia da sociedade diante da tragédia humana parecida com a de Nelson Rodrigues em suas crônicas e textos literários que foram adaptados para o teatro.
“O texto de Nelson Rodrigues utiliza um atropelamento no asfalto do Rio de Janeiro como denúncia da hipocrisia e da perversão da classe média carioca. ‘Carne no jantar’ retoma essa abordagem, ao explorar o choque entre a tragédia humana cotidiana e a banalidade de um bife a ser devorado no jantar”, reforça Fernando Pellon.
“Eu acho que há algumas semelhanças tanto no Nelson quanto no Fernando”, afirma o compositor Zé Arnaldo Guimarães. “A rua (o asfalto) não é só um cenário, é um lugar em que a tragédia acontece. Um altar, lugar de sacrifício, onde aparece a violência urbana. E ainda tem o sangue que tinge o chão, que é um elemento realista que espanta o ouvinte e o espectador”, destacou Zé Arnaldo, que também é mestre e professor-doutor em Língua Portuguesa aposentado da UERJ, e atualmente leciona no tradicional Colégio Pedro II.
Cinismo e hipocrisia
Em “Beijo no asfalto”, o personagem criado por Nelson Rodrigues demonstra compaixão pelo moribundo que acaba de ser atropelado, com uma atitude que o expõe como alvo de um escândalo que chamou a atenção da sociedade, por meio da imprensa, porque aceitou beijar na boca o homem caído na rua durante o seu último suspiro.
Na música “Carne no jantar”, de Fernando Pellon, não há compaixão diante da cena trágica; o personagem se apressa em deixar o local da tragédia com o pedido para que a sua companheira não se impressione com a cena chocante que acabara de presenciar, porque ele comprou carne para eles degustarem no jantar.
Disfarça e olha
Com cuidado para não se impressionar
Porque, amor
Hoje tem carne no jantar
(E eu suei pra comprar)
“Eu fiquei muito preso nessa cena, do bife que vai ser servido no jantar como a carne humana que é esmagada na rua. Tem um cinismo aí, a carne que alimenta a subsistência do trabalhador. Eu me lembrei de uma canção que foi lindamente interpretada pela Elza Soares (a carne negra é a carne mais barata do mercado)”, destacou Zé Arnaldo.
“Tem a questão dos choques que as cenas causam. O choque do Nelson é o puritanismo, a hipocrisia da sociedade com o beijo na boca entre dois homens, diante da morte de um deles. Já na canção, eu acho que o choque é a banalização da vida”, afirmou.
“A vida de bife na mesa da classe média precisa continuar em paz, sem envolvimentos conflitivos. O voyerismo despertado pela cena é protegido pelo distanciamento seguro conferido pelo anonimato”, explica Fernando Pellon.
Zé Arnaldo disse que percebe nas obras de Fernando Pellon e Nelson Rodrigues uma atitude de denúncia. “Tem uma crítica social embutida, subjacente, em ambas as obras. A do Nelson, é a imprensa sensacionalista que alimenta a moral burguesa, que está aí até hoje nos programas policialescos da televisão. Enquanto que na canção tem o medo da polícia, o não envolvimento com a polícia. O personagem viu a placa, mas não quer se envolver com a polícia. Isso remete ao ambiente onde a população não se sente segura diante da autoridade policial”, concluiu.
Obsessão com a morte
O professor de Teoria da Literatura na UFRRJ Roberto Bozzetti disse que é possível pensar paralelos entre os sambas de Fernando Pellon e a obra de “dois Nelson gigantes”: o Cavaquinho e o Rodrigues. “A obsessão com a morte, muitas vezes mesmo sua prefiguração e o que daí decorrerá, aproxima muito da estética do Pellon com o Nelson Cavaquinho. E com Rodrigues, sem dúvida, a denúncia escandalosa – não tanto pelo que expõe mas pelo que deixa entrever meio que querendo enganosamente esconder – do cotidiano burguês, e ainda pequeno-burguês brasileiro, com suas hipocrisias, seus medos, suas taras, covardias, enfim, suas (as nossas) iniquidades. Sob esse aspecto há sem dúvida um paralelo que podemos dizer conceitual entre Pellon e Nelson Rodrigues”, explicou Bozzetti, que também é letrista e parceiro musical de Fernando Pellon.
Ele acha que o enfoque dado pelo compositor bota “mais claramente o dedo na ferida” da desigualdade social. “O imenso abismo que nos compõe como sociedade: toda a covardia cidadã, chamemos assim, de quem presencia o atropelamento deve considerar os atenuantes sociais de sua atitude: temos de temer ‘problemas com polícia’, embora saibamos que nossa consciência não nos apaziguará. Na peça de Nelson, o ‘problema com a polícia’ se imiscui perfidamente com a venalidade do mau jornalismo, seu cúmplice, o que é outra aproximação possível”, disse.
Roberto Bozzetti observa que em “Carne no jantar”, o desfecho vem pelo humor amargo. “Afinal, carne no jantar é artigo raro (não é por acaso que a metáfora do presidente Lula ao tomar posse para seu terceiro mandato, a da ‘cerveja e da picanha’ obtém ainda hoje tantas reverberações). Seja como for, ‘Carne no jantar’, mais do que um instantâneo da brutalidade, da nossa violência cotidiana, criado há mais de 50 anos, é um verdadeiro ideograma cancional das nossas misérias, devido ao seu poder de síntese e de jogo imagético em levada de partido-alto”, concluiu.
Acesse o link para ouvir “Carne no jantar”
https://open.spotify.com/intl-pt/track/4RlgH9owu1AiPpBnQR9Vhm?si=d894ff5b24784d50